Acerca das desilusões, das listas independentes e dos jovens na política
por: Bruno Nunes


Li atentamente a entrevista que a Presidente da Junta de Freguesia de Covas, Fernanda Cabral, deu a este jornal no passado dia 20 de Fevereiro e foi com muito agrado que descobri que a mesma decidiu avançar com uma candidatura independente, sem o apoio de qualquer partido politico, confiando apenas na qualidade do trabalho que a sua equipa tem feito e quer continuar a fazer na freguesia. Devo admitir que não co-nheço bem a realidade especifica da freguesia de Covas, estando portanto impossibilitado de formar qualquer opinião acerca da valia do trabalho até agora desempenhado pela sua equipa mas tenho a certeza de que, no panorama actual, para ter a coragem de avançar com uma candidatura independente num meio pequeno, em que muitas pessoas ainda estão habituadas a ver os logótipos dos partidos no boletim de voto, é precisa muita confiança no que se fez, no que se faz e no que se quer fazer. Por isto mesmo, aproveito este espaço para endereçar à actual Presidente da Junta de Covas os meus sinceros votos de boa sorte para as eleições que se avizinham e, em caso de vitória, para o mandato que se lhes seguirá.
O que mais me agradou nesta entrevista foi a frontalidade com que Fernanda Cabral explicou as razões da sua decisão de abdicar dos apoios partidários e avançar com uma candidatura independente. Aliás, ficou bem explicito que decidiu prescindir desse apoio porque durante todo o mandato o mesmo não existiu. Pura e simplesmente. A estrutura concelhia do partido pelo qual foi eleita (PSD) e a sua equipa de vereadores (também eles eleitos pelos tabuenses da freguesia de Covas) como que desapareceram depois das últimas autárquicas. As suas palavras são muito claras: «O PSD perdeu as eleições e desapareceu. Os vereadores nada fizeram por nós, pese embora sendo oposição e tendo a minoria, pouco poderiam fazer, mas não nos deram qualquer apoio. Nunca vieram a Covas saber se precisávamos de ajuda, se estava tudo bem, se tínhamos sido bem recebidos, se estava a faltar alguma coisa, um apoio moral? Não recebemos nada, absolutamente nada». Tendo em conta a composição da equipa de vereadores eleita pelo PSD nas últimas autárquicas e o seu actual posicionamento para o próximo acto eleitoral, não será difícil perceber as razões de tal abandono, triste e pouco abonatório, não só para o partido mas principalmente para as pessoas e a confiança que nelas depositaram os eleitores. Como eleitor, como alguém que por principio acha a abstenção uma total irresponsabilidade social, tenho o legitimo direito de me sentir enganado por quem se propôs a ganhar eleições e depois de as perder se absteve de fazer o trabalho para que foi eleito. Independentemente do meu sentido de voto. Apenas e só porque votei e acho o que acho sobre a abstenção. Fazer oposição numa Câmara Municipal é precisamente apoiar os restantes autarcas eleitos (principalmente os do mesmo partido) e procurar com eles soluções para resolver os problemas com que se vão deparando e construir assim uma sólida e saudável alternativa para os eleitores. Não o fazer é troçar da confiança dos eleitores e voltar a clamar por ela é gozar com o próprio sistema político. A nossa democracia está cheia de políticos que mais não fazem que isso mesmo mas cabe a cada um dos eleitores mostrar-lhes um cartão vermelho e exigir mais seriedade. É para isso que servem as eleições e é por isso que atitudes como a de Fernanda Cabral devem ser louvadas e apoiadas. O fenómeno das listas independentes é crescente um pouco por todo o País e é, em parte, o reflexo da desilusão em que os partidos políticos se têm tornado, muito por culpa de atitudes como as que levaram a Presidente da Junta de Covas a prescindir da “chaminé” ou da “rosa” no boletim de voto!
Continuando a falar sobre a entrevista, posso também constatar que a desilusão da freguesia de Covas não é só com o PSD. Também o Partido Socialista fica mal na fotografia. Promessas não cumpridas, obras por terminar, estradas mais que esburacadas numa freguesia grande e com inúmeras povoações muito dispersas, tudo isto são mais achas para uma fogueira que parece não querer apagar-se. Por estas e por outras, acho muito bem que continue a crescer o fenómeno da candidatura de listas independentes aos mais variados órgãos de decisão e poder deste país. Quantas mais alternativas melhor.
Por último, aproveitando mais um bom exemplo da freguesia de Covas como são as “presidências abertas” que se têm realizado durante o mandato, aproximando dessa forma os eleitores dos eleitos, deixo uma ideia para que também na Câmara Municipal se possa abrir ainda mais, de forma séria e oficial, o diálogo entre o executivo e a população, tratando-se neste caso especifico do sector mais jovem devido à sua importância no que ao futuro do concelho diz respeito: a criação de um Conselho da Juventude, considerando que as Autarquias Locais são (pelo menos devem ser), principalmente devido à sua proximidade com a população, os órgãos de poder que mais facilmente podem criar condições para uma efectiva participação dos cidadãos e que, por isso mesmo, urge concretizar medidas que levem a população mais jovem do Concelho a desde cedo exercer o seu direito de cidadania, de uma forma mais participativa e empenhada, tomando consciência das vantagens dessas intervenções. Deve esse mesmo Conselho ser composto por representantes dos estudantes das escolas do concelho, das associações juvenis, das organizações partidárias de juventude, por deputados municipais de cada partido representado na Assembleia Municipal e, como é óbvio, pelo Presidente da Câmara Municipal. Talvez assim a perspectiva que os nossos autarcas têm acerca das necessidades reais do concelho se torne um pouco mais… ambiciosamente realista!

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